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Rafael Alentejo – Um exemplo de superação no Skate

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Nome: Rafael Alentejo

Idade: 24 anos

Cidade: Rio de janeiro

Formação: cursando educação física

Há quanto tempo tu andas de skate e o que te levou a começar a praticar do esporte?

Ando de skate desde os meus 13 anos, conheci dois caras que andavam e me interessei por esse esporte. Quando pequeno tinha um skate tubarão mas não tinha noção de como andar e não conhecia alguém que soubesse, até que conheci esses dois caras que me ajudaram

Como foi o acidente que você esteve envolvido e que acabou resultando na necessidade do uso de uma prótese?

Um dia sai para andar de skate, era mais um dia de rolé, fui em um projeto social que tinha obstáculos de madeira e rampas, quando deu a hora de fechar, uns garotos que conheci no dia me chamaram para irmos em uma outra pista, então fomos. Éramos cinco ao total. Em um determinado momento fomos caminhando pela linha do trem, era noite e já chovia um pouco, então ouvi um grito de um dos garotos “CORRE!” e quando dou por mim, vejo um paramédico batendo na minha cara falando para acordar. Ele dizia que tínhamos sido atropelados pelo trem. Eu me sentia muito fraco e cansado, então sempre que fechava o olho para descansar me davam tapas para me manterem acordado. Quando cheguei no hospital eu estava com a visão muito embaçada e ainda muito exausto, me levaram direto para sala de cirurgia. Ainda não tinha noção da gravidade do que tinha acontecido. Antes de chegar na sala ouvi os médicos falando em amputar a minha perna, entrei em desespero mas acho que eles me deram um sedativo e quando acordei eu estava na sala pós cirúrgica. Muito dopado de morfina, não conseguia discernir se aquilo era real, então quando o efeito da morfina passou me dei conta da realidade e me vi sem perna, pensei que nunca mais ia poder andar de skate. No meu prontuário estava escrito ‘morte eminente’, perdi quase que o equivalente a 90% de sangue. Eu realmente nasci de novo aos 18 anos.

Após o acidente e a cirurgia, como tu imaginavas que seria o teu futuro? Desde o começo, tu achavas que conseguirias andar de skate ou a motivação foi surgindo aos poucos?

Depois que o efeito da morfina passou, um fisioterapeuta veio conversar comigo me perguntando se eu praticava algum tipo de esporte antes do acidente. Então eu disse que andava de skate e ele me falou que skate não sabia, mas que tem muitos amputados que jogam futebol, que tem as paraolimpíadas e começou a me dar exemplos de pessoas que vivem uma vida normal com uma prótese. Assim, eu disse a ele que se os coras jogam futebol com prótese então eu poderia voltar a andar de skate com a prótese.

Demorou muito o tempo de adaptação? Quanto tempo depois de utilizar a prótese tu voltaste a andar de Skate?

Assim que tive alta do hospital fui encaminhado para um centro de reabilitação, ABBR, e lá eu fiz fisioterapia para a colocação da prótese. Levou seis meses até eu poder colocá-la e depois comecei a fazer fisioterapia com ela. Assim que tive alta da fisioterapia fui direto pegar o meu skate e ir treinar. Depois de um ano eu estava de volta às pistas de skate, mas a prótese que eu usava não era a apropriada para esse tipo de situação e sempre feria a minha perna. Me sentia mal por isso, mas eu não queria deixar de praticar o esporte que eu tanto amo, até que tive um apoio de uma empresa de próteses que estava começando e me ajudou muito. Com a evolução, necessitava de mais, até que conheci a Polior, uma fabrica de próteses da minha cidade. Eles me ofereceram uma parceria e as peças da prótese que usava aumentaram de qualidade, resultando em um melhor desenvolvimento para o skate. Um dia uma outra firma comprou a Polior e eles não quiseram continuar com a parceria, eu fiquei sem nada. Por causa disso, fiquei cinco meses sem andar de skate, pois eu não tinha condições financeiras para manter tais recursos, até que conheci a Bionicenter de São José dos Campos (SP). Eles vêm me ajudando e mantendo um patrocínio fiel e forte. Também conto com o apoio da Carma Skateshop, que me fornece tênis e equipamentos de skate.

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Hoje tu participas de campeonatos e apresentações? Até onde o skate já te levou e como é a recepção nos lugares em que tu andas e o pessoal nota a tua condição?

Sempre que posso tento participar dos eventos, mas hoje em dia eu não corro mais campeonatos por decepções no meio do skate. Mas sempre que to andando, seja em eventos ou não, a galera acha um máximo que eu, na minha condição, ande de skate.

Quais os motivos dessas decepções?

O skate hoje em dia virou uma panelinha na qual, se você não está dentro, muito dificilmente você conseguirá as coisas. E como eu não sou de fazer parte de panelinha não me dei muito bem. O skate perdeu a essência, onde eram todos irmãos e unidos, o skate ficou muito padronizado, algo que não tem nada a ver com o verdadeiro skate. O skate vem de uma cultura sem padrão onde cada um anda da maneira que quiser se veste de maneira que quiser. Parece que virou uma regra o modo que os skatistas se vestem hoje em dia, essas coisas me decepcionam, eu não faço parte desse método de skate.

Onde tu mais curtes andar? Street, Bowl, Mini Ramp ou Vert?

Hoje em dia eu treino mais transições e rampas, seja vert, bowl ou mini rampa. Eu tô parado com o street já faz um tempo.

Qual a categoria que tu costumavas correr e como foram os últimos resultados nos campeonatos?

Quando corria os campeonatos, no inicio do meu rolé com a prótese, corria de iniciante, e algumas vezes ficava em terceiro ou segundo lugar.

 

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Vi também que tu é instrutor de Skate. Quando começou a dar aula e de onde veio a vontade de virar professor?

Quando comecei a sonhar a viver do skate, a primeira coisa que veio na minha cabeça era dar aulas. Tentei outros métodos, abrir loja, marca de roupa, mas não deram certo. Conheci um projeto chamado BRIZA, que ensina skate para crianças de comunidades, levando o esporte como uma alternativa para elas. Então fiz um curso de instrutor nesse projeto e comecei a trabalhar de voluntário, ganhei um certificado como instrutor reconhecido pela CBSK, mas infelizmente tive que sair do projeto, pois comecei a trabalhar na mesma área na Zerovinteum – Escola de Skateboard.

Como foi desenvolvida a tua prótese? Já existia algo voltado para esse tipo de atividade ou foi a partir da parceria que fizeste que se deu o desenvolvimento dessa prótese feita especialmente para prática do skate?

A cada peça que eu troco tenho que me acostumar com ela, seria que nem quando compramos um shape novo, sempre tem o tempo de adaptação com ele, e não é diferente com a prótese. Já existiam peças de prótese para tais atividades.

Hoje esse tipo de prótese está disponível no mercado ou ela é feita de forma personalizada dependendo da condição de cada pessoa?

Bom, existem vários tipos de próteses, e ela é dividida em várias partes. As peças estão disponíveis no mercado para qualquer pessoa comprar, mas cada tipo de peça é determinada para cada tipo de situação que a pessoa passa. A única coisa que não se compra e sim é feito manualmente é o encaixe, a parte onde a perna amputada entra na prótese. Ela tem que ser feita exatamente no molde que é a sua perna, e para isso é preciso se consultar com um profissional na área.

Para encerrar, o que tu tens a dizer para pessoas que tenham sofrido algo parecido e que tenham vontade de praticar algum esporte ou voltar a praticar mas que desistiram devido a essa condição?

A deficiência não é estar na condição que você se encontra ou na doença que você tenha, mas sim na sua mente, se você colocar na sua cabeça que não consegue fazer o que sonha, você realmente nunca vai conseguir.

Confira abaixo algumas fotos do atleta e se você quiser saber mais sobre o Rafael Alentejo acesse sua fanpage no Facebook clicando aqui.

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Fotos: Ronaldo Nogueira / Dayanne Roberta / Facebook Rafael Alentejo

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Felipe Holman
Felipe Holman
Além de curtir skate desde muito tempo, é Publicitário, Designer Gráfico e também criador do projeto Maloka - Skate e Cultura Urbana.
http://www.malokaskate.com.br

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