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NEGRA JAQUE: “Tenho que me manter forte e seguir, mesmo com as feridas abertas das coisas que passo.”

negra jaque

Nome: Jaqueline Trindade Pereira (NEGRA JAQUE)

Cidade: POA

Idade: 28 anos

Fale um pouco da sua história, (Uma breve apresentação).

Sou Negra Jaque, rapper, moradora da zona leste de Porto Alegre, em uma de suas tantas periferias chamada Morro da Cruz. Sou ativista da cultura hip hop desde 2007 e, além do trabalho solo, sou produtora cultural independente onde, junto com outros ativistas, participo da gestão de  eventos ligados à cultura hip hop e principalmente pela valorização do hip hop feminino.

Quando foi que teve teu primeiro contato com o rap e o que te motivou a começar a compor e cantar?

Sempre me senti muito incomodada com que acontecia ao meu redor: polícia, droga, todas as mulheres que eu conhecia serem empregadas domésticas, como se isso fosse a única alternativa que elas tinham e tantas outras coisas ligadas principalmente à questão racial no pais.  Aí iniciei meus estudos para me tornar professora, e no curso de educação popular fui a presentada à composição da letra de rap por um amigo, porque eu já ouvia, já escrevia as letras de Racionais , Naldinho, mas escrever era uma outra projeção. Aí desde o ano de 2007 não parei mais.

Além do próprio rap, quais são os outros estilos que te influenciam?

O samba, o reggae e todas as musicas de matriz africana, pois elas são a essência de tudo que fazemos e cremos, os tambores são inicio de tudo, seja ele digitalizado ou não.

Como tu define o teu estilo de rap?

Tenho musicas diferenciadas, mas todas as letras têm uma cadência e uma rima pesada, mesmo com as batidas melódicas, ainda mantenho um estilo pesado de rap.

 

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Vejo que nas tuas composições tu fala bastante das opressões sofridas pelas mulheres na sociedade e também aborda temas como racismo. Sendo mulher, negra e militante dessas causas, como tu lida com essas situações no dia-a-dia?

Eu sou negra, militante, ativista e isso  gera três movimentos: o primeiro é meu, de constantemente manter a cabeça fria, pois a guerra maior que tenho é a interna e a de manter minha força e auto-estima para saber que, além de ser mulher, eu sou preta e isso muda tudo. Tenho que me manter forte e seguir, mesmo com as feridas abertas das coisas que passo. O segundo movimento é lidar com as pessoas e ocupar os espaços de maneira respeitosa, porque por mais que estejamos avançados, ainda a sociedade (e eu me incluo dentro( precisa ser educada a saber conviver com as diferenças do outro, e essa mancha na nossa historia vai levar um tempo para ser amenizada. O terceiro é o fundamental de tudo e são os meus objetivos. Temos que manter sempre o que queremos para nós em foco. Já falaram e decidiram muito por nós, agora e nossa vez.

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Sabendo que o universo do rap ainda é formado majoritariamente por homens e por conta disso muitas vezes se demonstra machista, como é vista a cena do hip hop feminino dentro e fora desse universo?

O movimento feminino como um todo tem avançado, no hip hop não e diferente, estamos fazendo trampo e resistindo, promovendo coisas, dando linha para o nosso trabalho. Dentro do espaço do hip hop os manos estão aprendendo, o machismo ainda é  muito grande, às vezes tem eventos que não tem nenhuma mulher, mas é nosso momento de dizer que estamos ali. Se não tem espaço, criamos, fazemos, construímos. Em qualquer espaço que a mulher tiver, ela tem capacidade e propriedade de promover coisas e contar sua historia sem pedir permissão a ninguém, promover parcerias. É a ferramenta dentro e fora do movimento hip hop, porque o machismo tá na sociedade, e não é segmentado em determinados movimentos. Ainda estamos em um grande processo de promover isso.

Existiram algumas dificuldades e resistências no início da tua carreira? Perante essas dificuldades, caso tenham existido, tivesse que alguma vez te impor como mulher perante elas?

Sim, essas são frequentes ainda, mas do machismo são as proibições dentro de casa. Hoje me encontro como rapper, trabalhadora e crio meu filho de sete anos sozinha. Então escrevia, fazia os sons, mas só no ano de 2013 iniciei realmente a projeção do que a Negra Jaque é hoje. Aos poucos fui me transformando e impondo barreiras às pessoas que queriam que eu desistisse por conta de ter que manter a casa. Sou estudante também de pedagogia e, muitas vezes, passava o dia na rua para aproveitar a passagem com os equipamentos todos na mochila para poder tocar no fim da tarde. Muitas vezes além da mochila carregava o filho junto. E ter que optar entre o dinheiro do estudo e a conta da luz e assim vai…nada e fácil pra nos mas resistimos.

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O que tu acha que falta para que o rap tenha uma presença feminina ainda mais forte dentro do movimento?

Os organizadores e produtores terem essa dimensão que o movimento só tem a ganhar com a mulheres reconhecidas dentro dele. Porque elas já estão inseridas desde o surgimento, elas têm que ser reconhecidas e o eventos cada vez mais promoverem mostrar igualmente a mesma quantidade de homens e mulheres, mas em contrapartida as mulheres devem se qualificar e fazer trampo de qualidade, se aperfeiçoar e ocupar com qualidade todos os espaços, valorizando a luta de outras mulheres que vieram antes de nos.

Falando nisso, qual a tua visão perante a situação da mulher, em especial a mulher negra residente nas periferias, na sociedade hoje? E como essa situação deveria ser combatida?

Ainda é muito difícil, nosso tempo enquanto mulheres negras é diferente. Enquanto as mulheres não negras lutavam para poder trabalhar, as negras sempre trabalhavam, deixavam de cuidar seus filhos para trazer alimento para casa e hoje continua a mesma coisas: as mulheres gerenciam as famílias nas grandes periferias.

É necessário estudo para estas mulheres, outras alternativas de formação profissional, políticas de proteção a não-violência, programas que prezem a auto-estima e valorizem o conhecimento dessas mulheres, o saber milenar que elas têm, suas habilidades – que são muitas. Só assim avançaremos um pouco mais.

Vi que tu teve a oportunidade de abrir o show do Black Alien aí em Porto dia 12 de agosto. Conte um pouco de como foi essa experiência.

Foi surpreendente, e uma responsa. É na pratica exercer e ocupar o espaço e levar comigo e com mais um monte de mina que acreditam no hip hip. A Griot, produtora que fez o evento, é dirigida por duas mulheres e comigo no trampo temos uma produtora, uma dj, e duas b.girls. Então somos uma matilha, quando veio este convite abraçamos de olhos fechados, valorizamos ao máximo as oportunidades pois o trampo não é fácil, e toda a preparação para estar lá e valorizar aquele espaço por ser um show nacional, fazer direitinho. Então é currículo, crescimento pra nós, e sempre um momento de aprendizado.

 

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E com relação a discos, como foi o processo de gravação do teu EP? Teve muita correria e dificuldade pra realizar o projeto?

O inicio deste projeto foi um prêmio de uma batalha de rima que ganhei aqui em Porto Alegre, a chamada Batalha do Mercado. Ganhei a gravação de um som e a partir daí iniciei o processo de organizar o material que eu já tinha. Arrecadamos grana com alguns trabalhos, investi grana também,  e o EP foi construído com várias parcerias de uma forma independente, sem patrocínio. O mais foda é que procuramos registro de CDs de minas gaúchas e não achamos. Isso nos deixou sem referência e deu uma certa responsa, mas ele saiu em dezembro do ano passado. E  nesse ano disponibilizamos o download dele no soundcloud, pois com a carência de trampos gaúchos femininos é necessário que ele chegue rápido e fácil principalmente para as meninas. Isso é uma forma solidária de divulgar a mensagem em um mundo tão egoísta. Mas temos ele físico para venda também. Todo o processo foi feito em parceria de pessoas que acreditaram na ideia, da arte a gravação. E isso eu agradeço muito a tod@s.

Quais são os planos para o futuro da tua carreira?

Iniciamos a produção de um clipe, do meu primeiro clipe. Estamos também produzindo alguns produtos, como turbantes e camisetas, e queremos ampliar a produção como um forma de gerar renda pro trampo.

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E os compromissos? Tens alguns shows marcados para os próximos meses?

Temos eventos dia nos próximos finais de semana:

– Dia 28/08 ato show do extermínio da população negra em POA – RS

– Dia 30/08 junção das minas no Sarandi  em POA- RS

– Dia 6/09 estaremos no projeto rap na rua

– Dia 12/09 feira de hip hop em POA – RS

E participaremos de uma espetáculo nacional chamado Rap Global, produzido pelo Trocando ideia. E estamos ainda abertos para eventos e feiras.

Para encerrar. Terias algo a acrescentar ou que gostarias de falar que não foi perguntado?

Estamos com uma “matilha” grande, mas ainda é preciso mais investimento de produção no rap. São muitos artistas com esta carência e precisa ter mais profissionais que acreditem no rap.

Abaixo você pode conferir um pouco mais do trabalho da Negra Jaque no Sound Cloud:

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Felipe Holman
Felipe Holman
Além de curtir skate desde muito tempo, é Publicitário, Designer Gráfico e também criador do projeto Maloka - Skate e Cultura Urbana.
http://www.malokaskate.com.br

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