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Luiz Schaun: “Uma cidade que não valoriza os jovens é uma cidade velha”.

luiz schaun

Em entrevista, Luiz Schaun, skatista veterano de Pelotas, conta um pouco da sua história no Skate, como era a cena local aqui na cidade de Pelotas nos anos 80 e outras coisas, como sua rampa particular e dedicação a música. Confira!

1- Fale um pouco da sua trajetória no Skate. Quando tu começou e o que te levou a começar a praticar?

Na verdade, quando comecei a andar o skate era tão somente um brinquedo, aliás, um brinquedo bem inseguro, pois era bem tosco mesmo. As rodinhas não tinham aderência nenhuma, tábuas sem lixas, de compensado grosso e pesado. Até os trucks eram pouco seguros, feitos de um metal muito frágil. Isso foi por abril de 1976, porque recordo que foi um presente de aniversário, um skate bandeirantes e era uma festa ser rebocado pelos amigos numa bicicleta “monareta” pelas calçadas perto da minha casa.

Acho mesmo que nem pedi skate de aniversário, foi uma espécie de surpresa dos meus pais que sabiam do meu espírito aventureiro e acho que pensaram que aquele seria um presente para usar um tempo e deixar de lado, afinal, eu na época também lutava judô e jogava futebol, e skate era a sensação do momento entre alguns garotos e isso , penso, os levou a pensar no skate como presente.

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2- Como que eram as condições para a prática do Skate aqui na cidade na época? Além do extinto “panelão” da praça existiam outros lugares para andar de Skate?

A pista pública, apesar de ser um luxo para nós na época da inauguração, sabemos hoje que foi mal construída, mal elaborada, mal projetada, mas era o que tínhamos. Aliás, na época dos skates bandeirantes não havia pista alguma, andávamos de skate pelas calçadas e nos finais de semana íamos em grupo para a “lomba da Uruguai” (rua Uruguai entre Felix da Cunha e Anchieta) que era o point , iam alguns caras de skate, umas meninas para olhar e foi assim por muito tempo. Fugíamos da Brigada Militar, eles até tomavam os skates e exigiam que os pais fossem recolhê-los na corporação. Aos poucos fomos melhorando os skates, que passaram a ter rodas de uretano e eixos que até faziam curvas. Muito depois, por 1977/1978, é que começou um movimento para reivindicar uma pista de skate , que também estava sendo construída em Porto Alegre, era a pista do Parque Marinha do Brasil. Então, depois de passeatas de meia dúzia (mesmo) de skatistas sensibilizarem o poder público e com alguma objeção por parte da sociedade e até opinião pública, a prefeitura na administração do prefeito Iraja Rodrigues, começou a construção da nossa “SUB” e nós todos acompanhávamos o passo a passo da obra num misto de expectativa e excitação pela conquista. Antes disso ainda tivemos  um “quarter “ com borda redonda e com quase 2 metros de altura que serviu para um campeonato ou demonstração (não lembro) que ficou lá no Clube Brilhante e alguns sócios podiam usar a rampa de compensado que estava na quadra de futebol. Lembro de ver aerials ali do Edu Farias, do Pingo e do Pinho Xongão (já falecido) que na época eram os três maiores ícones do skate local. Depois tinha também a rampa do Nino, do Elder (que foi presidente do Xavante) e do Ovo, que ficava perto da antiga fábrica da Pepsi Cola e felizmente tenho até registro fotográfico dessa fase pré-pista de skate. Mas o mais intrigante é que os que lideraram o movimento para a construção andaram realmente muito pouco na pista depois de construída e eu com orgulho posso te dizer que de fato eram só uma dúzia de apaixonados que iam diariamente para lá andar de skate, e eu estava entre esses caras, e assim foi por muitos anos mesmo.

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3- E com relação a campeonatos. Tu competia? Eram realizados eventos desse tipo aqui em Pelotas?

Os campeonatos aqui em Pelotas e na SUB eram organizados no começo por nós mesmos, corríamos atrás de premiação com algumas lojas que de uma forma ou outra tinham nos skatistas e nesse life style que estava iniciando na cidade um público alvo, Timpano, Procópio, Timesport, enfim, não existiam datas nem calendários de competições, e os campeonatos eram uma forma festiva de reunir o máximo de skatistas na pista.

Tu corria numa categoria e era juiz de outra. Foram muitas e muitas fases do skate aqui, então, para cada uma dessas fases há um cenário rico de informações. Quanto aos campeonatos, sim, competi em vários eventos locais, regionais e até nacionais.

4- Tu possui registros guardados dessa época? Qual o que tem maior valor pra ti?

Sim tenho muitas fotos, inclusive algumas delas nos meus álbuns de facebook. Evidente que não se fotografava como hoje em dia, que qualquer um fotografa tudo e qualquer coisa. Nessa época passada havia o custo de revelação, equipamentos ruins, e na verdade, não estávamos tão preocupados em documentar a coisa toda, queríamos era andar de skate. Para mim o troféu mais significativo dessa fase de competir nem é troféu, mas uma medalha de quarto lugar num campeonato brasileiro em half pipe em Criciúma na categoria amador. Evidente que tive colocações melhores em outros eventos, mas esse foi uma das primeiras viagens mais longas que eu fiz e isso marcou.

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5- Hoje tu tem uma Miniramp no teu pátio. Conte um pouco sobre a ideia e os motivos de teres uma rampa em casa.

A Bregarampa é só uma das mini rampas que eu tive, na verdade é uma espécie de fetiche essa coisa de ter uma pista, é um sonho de consumo de todo skatista, todos gostariam de ter uma pista em casa, eu tive três, duas na casa dos meus pais, construída com ajuda de amigos skatistas, e essa construída num regime de mutirão com mais dois amigos e a minha esposa nos fundos da casa onde resido hoje. Nós mesmos levantamos a alvenaria, nós mesmos concretamos, enfim , isso tudo impõe um significado quase místico do lugar para celebrar o skate e a amizade, é o nosso templo onde fazemos nosso culto à amizade.

Quando construí a Bregarampa imaginei que meus dois filhos se empolgariam e retornariam a andar, a influenciar e trazer amigos, mas aprendi com alguma dor que o melhor é vê-los fazendo exatamente o que gostam, mesmo não sendo o legado do pai skatista. Digo isso porque construí a extinta pista de concreto das Lojas Quebramar e lá, com meus filhos, tive momentos de ternura e adrenalina. Mas momentos são assim mesmo, momentos. Então meu conselho é esse: viva o momento, curta o momento, pois nem sempre eles retornam.

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6- Com relação a cena do Skate aqui em Pelotas. Como tu vê essa situação de a cidade possuir um grande número de skatistas mas nenhum lugar próprio para andar, já que a única pista pública da cidade está largada desde sua construção? 

É realmente triste, certamente Pelotas tem talentosos skatistas, gente dedicada a ensinar skate, mas é muito difícil sensibilizar os políticos para essa necessidade, numa região empobrecida como a região sul, onde falta de tudo, onde não se vê sequer investimento em coisas básicas, dificilmente o poder público se preocupa com lazer e esporte. Também percebo a falta de uma estrutura de força por parte dos skatistas para poder pressionar, pedir, lutar por melhorias na pista pública, manutenção e até a ampliação. Existe projeto, existe demanda, mas não existe vontade política para fazer alguma coisa pelo skate, e isso também está relacionado com a imagem que os skatistas passam de si mesmos.

 

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7- Além da ligação com o Skate, tens também uma ligação forte com a música e integras a banda Bregadeth. Conte um pouco dessa ideia e história da banda.

Cara, toco há muito tempo, skate e música sempre estiveram ligados, toquei na DBO, na The Mentz, na Sluggo (todas malditas), e atualmente toco na Bregadeth, que é uma banda que já foi de 100% de skatistas, mas com algumas mudanças hoje está pela metade a cota. No entanto o espírito punk rock e skate punk está ali na nossa proposta musical, que é a diversão acima de tudo.

A Bregadeth já existia com o Maninho e o Anderson mas esteve hibernando até que entramos eu e o Eder, dai com minha disposição de fazer acontecer a banda cresceu, aliás, segue crescendo, mas sempre for fun.

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8- O Skate te influenciou a se aventurar também na música ou foi o contrário? O que veio primeiro?

Acho que meio que juntos, nas primeiras sessions da Uruguai se ouvia ACDC, Led Zeppelin, Black Sabath, Neil Young. Skate e música sempre andaram de mãos dadas, e não podia ser diferente essa história. Na verdade são coisas que coexistem e há no mundo inteiro várias bandas formadas por skatistas. Nos anos 80 eram formadores de tendências, e isso incluía poder tocar o que gostaria de ouvir para andar de skate. Acho que foi nessa época que começou a pipocar a ideia de poder tocar rock’nroll.

9- O pessoal comenta das sessions que rolam as vezes na tua rampa regada a muito skate e rock’n roll. Ainda tem rolado? 

Tem, em alguns sábados reúno amigos (e tem que ser amigo mesmo) e rolam as sessions, com sonzinho portátil, numa vibe bem bacana, mas de fato nesse outono/inverno de 2015 tivemos muitos sábados chuvosos, e como a pista é na rua, frio e chuva não favorecem. Então foi bem lento esse período, mas estamos quase em setembro e as coisas vão voltar a bombar.

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10- Para encerrar, tendo em vista que pessoas envolvidas com o Skate aqui na cidade estão se vendo obrigadas a formar parcerias e ajudar a realizar campeonatos em outras cidades, como a 2ª Etapa do Circuito Gaúcho de Skate Amador que rolou em Rio Grande, cidade que conta com a pista do Parque Marinha e outra em construção na Praia do Cassino, na tua opinião, o que uma cidade com tantos skatistas como Pelotas tem a perder, além de toda a movimentação que esses eventos proporcionam, com essa falta de incentivo?

Em primeiro lugar, perdem os skatistas que poderiam estar andando na própria cidade, evoluindo, melhorando sensivelmente o nível técnico, em segundo lugar perde o skate, pois num evento desse naipe estimula a renovação já que no dia seguinte há uma nova onda de futuros possíveis praticantes interessados em começar a andar. Sempre foi assim e perdemos a chance de empreender com turismo desportivo, colocar a cidade em destaque em publicações especializadas, na mídia, etc. Uma cidade que não valoriza os jovens é uma cidade velha. E é isso que acontece, jovens numa cidade velha e com uma administração cega que não percebe que lazer e esporte faz as pessoas felizes.

É uma pena a pista estar tão abandonada, ver viciados em crack por ali, nenhum policiamento, o abandono estético, a ruína da pista. Qual pai vai querer colocar seu filho num ambiente assim???

Daí eu volto para aquela pergunta da motivação para a construção da minha Bregarampa, infelizmente a gente cansa de esperar para que seja feita alguma coisa e felizmente tive condição de fazer a pista nos fundos da minha casa. Mas nunca será como uma pista pública bancana onde a amizade nasce, onde se vê gente diferente andando, onde o skate de verdade acontece.

Abaixo você pode conferir mais algumas fotos da época da primeira pista de skate da cidade, da Bregadeth e também da Bregarampa:

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Fotos: Felipe Holman / Acervo Luiz Schaun

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Felipe Holman
Felipe Holman
Além de curtir skate desde muito tempo, é Publicitário, Designer Gráfico e também criador do projeto Maloka - Skate e Cultura Urbana.
http://www.malokaskate.com.br

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