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Grafiteiro Bero em entrevista fala sobre sua trajetória no grafite.

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Vinícius Fouchy Moraes, conhecido como Bero, natural de Pelotas, dentre diversos cursos e atividades pelas quais passou, concluiu o curso de Bacharelado em Artes Visuais na UFPel (Universidade Federal de Pelotas). Além de grafiteiro é também tatuador e divide um estúdio em Pelotas onde grafita e tatua juntamente com sua namorada, Bruna Britto.

Fale um pouco de sua trajetória. Quando e porque tu começou a te envolver com grafite?

Eu sempre gostei muito de desenho, de assistir desenho animado e desenhar. E eu acho que grande parte da minha geração foi muito colocada na frente da TV e passava muito desenho de manhã, e isso fez com que a vontade pelo desenho despertasse. Até hoje, quando tenho tempo, se está passando algum desenho na TV, eu fico assistindo porque foi algo que me marcou e que eu realmente curto. E outra coisa também é que minha tia, que era professora, sempre deixava materiais disponíveis pra mim, como papel, lápis, lapiseira, etc. Assim eu fui pegando gosto pelo desenho, ficava assistindo desenho e desenhando durante a manhã durante minha infância.

Já o grafite veio aparecer pra mim entre meados e fim dos anos 90, um pouco por meio de filmes, geralmente de gang, e programas de TV, mas até então eu não tinha um acesso direto ao spray nem via o uso do mesmo como ferramenta para arte. Então rolou um movimento aqui na cidade com um pessoal da antiga, chamado STO Crew, que pintou um mural em um posto de gasolina na Rua Ferreira Viana e acabou saindo na TV. Com isso o pessoal ia lá olhar, e vendo aquele painel pintado todo com spray comecei a ir atrás de informação sobre o grafite. Como o acesso à internet na época era bastante restrito, um dos poucos acessos que eu tinha sobre isso era uma revista bimestral, mas com o passar do tempo a coisa foi evoluindo, fui passando muito tempo na rua, tendo muito contato com a galera do grafite, rap, skate, e a partir daí que eu entrei nessa e não sai mais.

Porque Bero?

O apelido surgiu por em função de uma jaqueta de bombeiro que eu usava quando eu era mais novo. Por causa disso algumas pessoas me chamavam de Bombeiro, outras de Bero, e comecei a usar esse apelido para assinar meus grafites.

Quais as suas referências no grafite hoje em dia?

Acho que hoje Os Gêmeos são uma dupla que está em um nível à frente tanto na forma de atuar dentro das cidades como também na forma de pintar e são dois caras que eu admiro pelo que fizeram e fazem pelo grafite. Como inspiração, dentro do grafite, eu estudo bastante e acho que vou estudar muito ainda o Bruno Smoky, acho o estilo dele bem louco. Outro brasileiro que eu curto muito o trampo é o Osório Holie, é um cara que evolui muito rápido. Na tatuagem o estilo que eu sempre busco trabalhar é o New School, que se assemelha bastante ao grafite, principalmente tatuadores New School espanhóis que são muito foda. Fora da cena, as obras do Van Gogh sempre me fascinaram.

Como tu descreve o teu próprio estilo e a tua evolução no grafite?

Na verdade eu não fico pensando muito antes de pintar ou pré-determinando como vai ser o resultado final da minha pintura, eu vou experimentando. Às vezes eu sei que determinada técnica que eu estou usando não vai gerar um resultado muito proveitoso, mas vai ser tão bom fazer do jeito que está sendo feito que eu prefiro deixar a ação e o momento prevalecer a preocupação com o resultado final. Então minha técnica hoje é baseada em experimentação. Isso foi, inclusive, base para o meu TCC, onde eu chamo a técnica de “sprayssionismo” que busca trazer as técnicas e pinceladas do Impressionismo e Expressionismo para os traços de spray dentro do grafite. Com um traço mais fino que o comum e bastante gestual, bem marcado. Mas não me prendo muito a isso, estou sempre tentando mudar e trazer questionamentos durante a produção do meu trabalho pra não deixar de experimentar o máximo possível.

Já que tu pinta tanto em parede quanto em tela. Tens alguma preferência entre esses dois suportes?

Eu gosto mesmo é de pintar. Se eu pudesse escolher por só pintar na rua eu optaria, mas não é bem assim. Também pinto tela pra mim e pinto tela pros outros. 

Como tu executa um trabalho na rua, isso geralmente vem pronto na cabeça ou num esboço numa ideia pré-editada?

Eu prefiro o freehand mesmo, chegar e sair fazendo. Mas em determinados casos não tem como ser assim, às vezes quando a pintura é comercial a gente tem que chegar com um desenho pra que o dono do estabelecimento ou o que for possa aprovar e daí sim eu parto para a pintura.

O grafite hoje em dia está melhor visto do que há alguns anos, o que você acha dessa exposição e por qual motivo tu acha que o estilo vem sendo mais aceito?

O grafite é uma arte de atitude, faz quem realmente está disposto a fazer e tanto ilegal como legalmente. Lógico que tem muitos que fazem grafite querendo se promover e isso vem acontecendo em função do próprio capitalismo, onde tudo se torna vendável e tornou o grafite uma atividade comercial, mas esses acabam não durando muito. Eu não quero ficar rico, mas quero poder me vestir e comprar meu rango fazendo o que eu gosto que é grafitar. Querendo ou não, o uso comercial fez com que as pessoas aceitassem o grafite e isso acabou facilitando para quem quer viver disso. Antes passava sempre um falando “ae vagabundo, vai trabalhar!”, já hoje o pessoal para e fica olhando. Às vezes pergunta se a gente pinta o muro ou o quarto.

Por tu ter um traço e estilo bastante autoral, em que ponto tu acha que o teu trabalho se diferencia dos demais?

Eu acho que todo mundo que pinta busca se diferenciar mais pelo estilo mesmo. Eu não sei definir muito bem o meu estilo, mas eu sei que tem muito das referências dos desenhos que eu assistia, da música que eu escuto, do momento que eu tô vivendo e isso o cara transporta pra imagem que está sendo criada.

Qual a tua opinião sobre o grafite nas galerias, já que o grafite vem das ruas, onde é aberto e todos podem ver, e a galeria de arte é mais elitizada e acaba limitando de certa forma o acesso a arte?

Tem seu lado bom e lado ruim, mas eu acho que ajuda a fazer o grafite crescer, pois querendo ou não essa entrada do grafite nas galerias foi uma conquista onde o que não era visto como arte agora é e faz com que as pessoas olhem o grafite na rua e vejam com outros olhos. Assim como ver um cara tocando uma música na rua e ser reconhecido como artista faz com que o grafiteiro seja visto da mesma forma e mais valorizado e aceito. Tem quem diga que grafite tem que ser só na rua, mas né, como eu disse antes, todo mundo que ter sua vidinha e ganhar o seu.

Existe alguma dica para quem está começando agora?

Praticar, produzir e fazer. É meter a mão e seguir em frente.

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Fotos: Felipe Holman/Página Bero

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Felipe Holman
Felipe Holman
Além de curtir skate desde muito tempo, é Publicitário, Designer Gráfico e também criador do projeto Maloka - Skate e Cultura Urbana.
http://www.malokaskate.com.br

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