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Entrevista com o rapper Zudizilla: “O rap é uma ferramenta de transformação do ser humano”

rap

Primeiramente gostaria que tu te apresentasse:

Nome: Júlio Cesar Correa Farias

Idade: 29

Onde nasceu: aqui, Pelotas.

Formação: Turma de 2009 de Comunicação Visual no Ifsul, eterno estudante de artes na UFPel, e calçadas em geral.

De onde vem o apelido Zudizilla?

Alta história. Eu assinava e assino por zulu alguns desenhos e tal. Apelido que também surgiu mais da inversão do conteúdo pejorativo, do que por uma escolha. Meu tom de pele revela bem minha ligação com a África e isso pros outros era, de certa forma, desconfortável.

Assumi o tag que foi junto comigo pro som e de um som surgiu essa parada. O juca (Juliano Drummond) escutou um som meu, e disse que eu era tipo monstro e tal, pique godzilla, tipo zuludizilla. Tu é um zudizilla.

Conte um pouco da sua trajetória. Desde quando tu descobriu o rap e começou a escrever os primeiros versos até hoje.

Então mano, eu não escutava e escuto pouco rap. Eu vim de uma vertente de música diferente. Eu migrei do hardcore pro rap graças ao pok sombra. A gente se conheceu e eu tava bebadão e rimei uma noite inteira no Fórum Social Mundial. A partir daí comecei a fazer rap. 2007 se pá.

Vi na internet que teu lado artístico aflorou bem cedo, pois além de rapper tu também grafita e desenha desde pequeno e já expôs teus trabalhos inclusive. Conte um pouco sobre isso.

É o que eu curto mais. Gosto de imagens, e meu som é mais ou menos isso. Uma descrição de situações, mesmo que imaginativas. Mas eu curto qualquer tipo de expressão, é que o que tive contato primeiro foi o desenho mesmo. Parti pras paredes num anseio por maiores superfícies. Já fui um artista de exposições (nunca individuais, mas hoje pinto mais por satisfação e num exercício de autoconhecimento. Era do caralho e cultivo várias amizades da época.

Quais artistas tu tens como referência dentro da cena hiphop e quais são tuas influências?

Pô véi…

Acho que Mos Def em primeiro lugar. Sempre me vem em mente a figura dele, e pra mim sempre foi um cara que merece muito respeito. Commom, acho foda. Curto Parteum pra caralho…

OGC também é foda. Wu Tag Clan mano, De La Soul, Pharcyde. É foda ficar citando aqui, mas sei lá, entre 90 e 2000, tinha muito disco e grupo de rap foda.

Como tu vê hoje a cena do rap aqui na cidade e região?

Geral tá foda e trampando pra caralho. O bagulho pra cá é muito plural e tem som pra tudo que é gosto. E tem espaço pra tudo que é tipo de som, desde que bem feito. Acho a cena da hora, mas ainda dá pra rolar um upgrade, mas isso não adianta ficar só aqui falando. Todos os envolvidos , inclusive eu, temo que arrastar um piano e ponto.

Como tu define o teu estilo na hora de compor as tuas músicas e que tipo de mensagem tu busca passar através delas?

Eu não sou uma pessoa que pensa na atmosfera das músicas, e isso é algo a ser trabalhado, porque planejar uma canção é tipo esboçar a obra, pra ter como corrigir e tal.

Eu sou do tipo que baixa a cabeça e escreve. Não penso muito no que vou pensar, mas sempre sei no que que isso vai resultar. É meio doido de entender se pá, mas é tipo um jogo de pistas, onde analiso o instrumental pra ver no que ele me remete, depois tento as primeiras linhas e se elas nascerem com fluência, já tenho em mente os versos do fim automaticamente.

É muita canha e fumo, e uma preocupação constante de introduzir na minha mente através de livros e leituras afins, um arsenal que possa me permitir pensar só na ideia central e deixar as palavras virem de acordo com o ritmo.

A mensagem varia de acordo com esse processo que te passei anteriormente. É óbvio que tem coisas que minha personalidade não me permite cantar, que são coisas que não tem a ver com o que eu tô passando no momento. Como sento e escrevo, não viajo muito no futuro e no passado. É quase que sempre um retrato do meu presente, mesmo que pra isso eu tenha que viajar no passado. Eu viajo pra caralho na real kkkkk

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Conte um pouco de como foi a correria da produção da tua última mixtape lançada e como está sendo a repercussão do teu trabalho após o lançamento da mesma?

Pô, foi um aprendizado mano. Foi como se eu tivesse cursado uma universidade.

Planejamento, estruturação, execução, tudo isso foi muito preciso e tal.

Pro que eu tinha em mãos, foi um puta passo. Lembro de nego meio que deixar cair a credibilidade na parada e recuperar pós esse disco. Foi foda pra mim e bom pra minha cidade acho.

O pós dele eu não trampei muito e daí, tipo, foi difícil prospectar onde eu estaria agora.

Esse foi meu único erro, mas um erro necessário pra que eu não me deslumbrasse com nada e seguisse com o pé no chão. Tudo o que veio do disco me surpreendeu tanto quanto a rapaziada que tava acompanhando o pessoal falar bem desse trabalho. Eu só agradeço e sigo trampando, porque eu só sei trampar pra caralho até que isso se torne uma causa de insônia e que através dessa porra, desse foco, eu alcance o menor de meus maiores sonhos.

É 120% de energia na parada, pra que 20% seja a margem de erro. E agora tô pondo em prática tudo isso de novo nesse próximo trampo.

Como músico independente, qual a tua opinião sobre o espaço oferecido para os rappers tanto nas rádios como por órgãos públicos voltados à cultura?

Cara, rap é contracultura saca? A parada por si só não segue padrões. Mas tem rappers com sonhos e você nunca pode tirar o sonho de um homem. Já foi mais difícil chegar em rádios e os espaços destinados aos rappers, mas não é isso entende?

Nóis qué o mundo inteiro e pra isso tem que trampar pra caralho. Sempre vai ter uma alma caridosa pronto a abrir espaços pro cara, assim como também vai ter uns cara de olho grande usando nosso discurso pra engordar a conta. Eu acho que o rap que não se prende nem por um e nem por outro, alcança lugares melhores e mais propícios.

Parece que os cara sempre nos põe onde nóis não precisa tá.

Segundo teu ponto de vista, Qual o papel do rap na sociedade?

O rap é uma ferramenta de transformação do ser humano, mas numa escala filosófica. O hip hop, como um movimento social, tem de agir em união com os órgãos públicos em ações que envolvam o o rap, o graffiti, o skate, o basquete, etc, em contato com essa camada de risco da sociedade.

Já o rap é, em primeiro lugar, música. Em segundo lugar, é mais uma janela pro conhecimento e, em terceiro lugar, é um negócio bem rentável pra algumas pessoas, não eu no caso, que tô fudido. kkkk

Pra mim ele funciona como os dois primeiros. Nele eu consigo por pra fora a ânsia de construir algo que eu procuro em outros discos e não encontro, pois sou eu quem devo fazê-lo. Além disso rola aquela oportunidade de expor minha impressão do mundo e pra isso consulto os grandes mestres da literatura pra analisar suas obras e ter aquele já falado arsenal.

Posso instruir pessoas e eliminar meus vícios, compartilhando minha vida aberta e verdadeira em cada linha, onde mato um eu por cada som. kkkk

Acho que essa é a maior mudança que o rap pode ditar na sociedade atual, que é a mudança de comportamento.

Mas acontece que tem aquela fita lá do “rentável”, e realmente é, o que faz com que algumas pessoas foquem na questão comercial e vendável do som e esqueça as outras partes.

Também não tão errado, porque ninguém tem a obrigação de salvar o mundo.

Mas quem tem essa responsa num dorme bem se não fizer nada.

Pra terminar, queria saber quais teus planos pro futuro? Já tens algum projeto ou parcerias se encaminhando?

Tenho um collab com a marca RU de POA que vai trabalhar na identidade visual do meu disco e se dedicarão a parte de vestuário. O disco sai em novembro.

Quer conhecer o trabalho do Zudizilla? Dá uma olhada no vídeo logo abaixo e também confere lá a página dele no SoundCloud.

 

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Bero: Artista pelotense fala um pouco sobre sua trajetória no grafite.

Fotos: Paula Paz

Felipe Holman
Felipe Holman
Além de curtir skate desde muito tempo, é Publicitário, Designer Gráfico e também criador do projeto Maloka - Skate e Cultura Urbana.
http://www.malokaskate.com.br

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